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Mallê deitada no Mirante do Chapéu em Ibitipoca, Minas Gerais

Com frequência, vejo pessoas em busca de dicas de destinos. “Viajar pra onde?” – lançam a pergunta ao vento. A verdade é que isso não importa. Antes de tudo, a questão a ser respondida é: você está pronto para ver outro lugar?

Rubem Alves diz que “toda viagem inclui duas partes. Primeiro, a escolha do lugar para onde se vai“. Essa escolha pode depender de muitos fatores. Por exemplo, que tipo de viajante você é? Prefere um confortável quarto de hotel ou se adapta a qualquer canto? Prefere praias e calor, ou montanhas e frio? Quanto tempo você tem disponível? Vai sozinho ou acompanhado? Certamente, tudo isso é levado em conta ao escolher um destino. No entanto, como completa o próprio escritor, “Essa escolha, quem a faz é o coração […]“.

Eu, Viajante

Desde muito pequena, sempre sonhei com grandes viagens. Me encantava ver livros com fotografias das pirâmides do Egito! Sentia o vento gelado só de olhar os Alpes Andinos, como um bolo coberto por chantili por causa da neve…

Mais tarde, ganhei de meu pai uma enciclopédia onde havia uma foto do “Solitário George”, a última tartaruga gigante das Ilhas Galápagos. Decerto, aquela imagem nunca mais saiu da minha cabeça! Havia uma mulher ao lado dele, assim, era possível imaginar o quanto ele era realmente enorme! Galápagos tornou-se a viagem dos meus sonhos, afinal, eu precisava conhecer o George!

Mas a vida tem desvios que a gente desconhece… Vi minha vida ser modelada por problemas de saúde. Fui limitada às paredes de casa. Meus sonhos adormeceram. O que me alimentava era a leitura. Em especial, Rubem Alves (a quem sempre me refiro). Aliás, foi em seus livros que aprendi a abrir os olhos para as pequenas coisas ao meu redor. Então, comecei a ousar aos poucos. Um dia de cada vez. Uma pequena conquista por dia.

Ruas do Bairro Santo Antônio, Belo Horizonte/MG
Um passeio pelas ruas do bairro, depois de anos morando na cidade | Foto: Cores do Mundo

Em seu livro “Um Mundo Num Grão de Areia”, há uma citação de William Blake:

Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor Silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora.

Por mais piegas que possa parecer, até a maior das montanhas é formada por milhares de minúsculos grãos de areia. De fato você só passa a dar valor ao clichê da “longa caminhada que se inicia com o primeiro passo”, quando você perde a liberdade de andar.

Pés caminhando pelas ruas de pedra de Sabará/MG
Todo longo caminho começa com o primeiro passo | Foto: Cores do Mundo

Como bem disse Alberto Caeiro:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores…

Foi colecionando as lembranças de cada passo dado, que valorizei as pequenas dádivas. As efêmeras alegrias. Enxergar exige muito mais vontade do que olhos! E tudo ao nosso redor passa a ter mais brilho quando se observa com a alma.

Dessa forma, descobri que havia um mundo inteiro ao alcance das minhas mãos, bem na ponta do meu nariz! E era este meu ponto de partida: minha casa. Meu quintal. E então, minha rua; meu bairro; minha cidade. Depois, viajar pra onde fosse possível: a cidade ao lado, o estado vizinho… Sem pressa.

Viajar pra onde?

A vida é igual a andar de bicicleta. Pra manter o equilíbrio, é preciso se manter em movimento.

Albert Einstein

Você pode viajar pra onde quiser. Se tem a possibilidade de ir, apenas vá. Deixe que o destino escolha você. Primeiramente, questione-se: o que você busca? Quem procura, acha!

Pouco importa se sua viagem será internacional ou nacional. Se você atravessará o oceano ou a rua da sua casa. Feche os olhos do medo e abra os olhos da alma!

Mallê deitada no Mirante do Chapéu em Ibitipoca, Minas Gerais
Foto: Cores do Mundo

De que me vale preparar a viagem com precisão se, ao chegar lá, eu só vejo o banal? Por isso que Nietzsche dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Quem sabe ver está sempre viajando, mesmo que não saia de sua casa. Mas quem não sabe ver não viaja, mesmo que vá para a China. Suspeito que nossas escolas ensinem com muita precisão a ciência de comprar as passagens e arrumar as malas. Mas tenho sérias dúvidas de que elas ensinem os alunos a ver com outros olhos.”

Rubem Alves

Mineira do Vale do Jequitinhonha, é apaixonada por tradições populares. De alma nômade e pés inquietos, sonha poder conhecer o mundo todo e suas diversas manifestações culturais.