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Foto do Museu Das Cadeiras Brasileiras

No centenário do nascimento de um dos maiores nomes do design e da arquitetura brasileira, a cidade de Belmonte, na Bahia, inaugurou o primeiro museu dedicado a cadeiras. Conheça o Museu das Cadeiras Brasileiras.

Como soubemos do MUCA

Quando ficamos sabendo, ainda em 2018, que o Festivale seria realizado na Bahia, logo mudamos nossos planos pra ir a esse poético endereço: Rio Jequitinhonha, esquina com o Oceano Atlântico. Tem como não querer estar aqui?

Começamos então nossas pesquisas sobre Belmonte, e ainda que tão pertinho de Porto Seguro, encontramos pouquíssimas informações. No entanto, um dia lendo o site da Casa Vogue, vi a notícia de que a cidade havia acabado de inaugurar o Museu das Cadeiras Brasileiras. Na mesma reportagem, falava-se do fato de José Zanine Caldas ser natural da cidade, o que me despertou maior vontade de ir à Belmonte.

Quem foi José Zanine Caldas

José Zanine Caldas (1919-2001) | Foto: Sidney Corralho

“Eu conheci pessoas no Brasil, convivi, me entendi com elas e elas se entenderam comigo. Pessoas maravilhosas, pessoas que – digo – são Deuses. São pessoas que fizeram, não é milagre não; é mágica. Eu quando tinha 8, 9 anos e ficava vendo uma pessoa trabalhar, numa oficina fazendo uma carroça pra mim essas pessoas eram mágicas”

José Zanine Caldas

Pra quem vem de fora do universo da Arquitetura e do Design, seu nome talvez soe estranho num primeiro momento. No entanto, uma breve busca pelo seu nome na internet é o suficiente para se ter noção do tamanho e importância de Zanine Caldas.

Nascido em Belmonte em 1919, filho de pai médico, Zanine optou pelo fazer ao invés da academia. Preferiu acima de tudo, aprender vendo àqueles que faziam: canoeiros, carpinteiros… Por volta dos anos 1940, foi morar no Rio de Janeiro, onde iniciou a carreira como maquetista. Desse modo, passou a conviver com os grandes nomes do modernismo brasileiro: Lúcio Costa, Oscar Niemeyer entre outros tantos. Aliás, foi ele o profissional responsável pelas maquetes do Maracanã (RJ) e do COPAN (SP), além de mais de 700 outras!

Amigo pessoal de muitos arquitetos da vanguarda brasileira, tinha eventualmente seu escritório rodeado pelos grandes nomes. É provável que esse convívio tenha, por consequência, lhe dado a teoria que ele precisasse pra ingressar finalmente na arquitetura.

Mais tarde, por mais que nunca tenha cursado uma faculdade, lecionou Maquete na UNB (Universidade de Brasilia). O convite foi feito por Darci Ribeiro, que propunha pra ali uma faculdade focada no fazer, não apenas no saber; algo que Zanine conhecia bem. Ainda em Brasilia, Zanine constrói sua primeira residência. Logo depois, muitas outras viriam a ser construídas.

Durante os anos 1980 em Nova Viçosa, Zanine viveu uma grande fase de reencontro consigo mesmo. Ali era onde ele sonhava construir uma cidade proto-ecológica. No sul da Bahia foi onde Zanine criou uma oficina para antigos canoeiros. Buscava ali, reafirmar sua identidade e não só preservar, mas reinterpretar tradições regionais caboclas que tanto o emocionavam.

Arquiteto honoris causa

Também em meados dos anos 1980, Zanine se viu em meio a polêmicas envolvendo seu nome. Toda a projeção que vinha ganhando, somada ao fato de não ter feito um curso superior (algo exigido pelo CREA), começava a incomodar arquitetos, chegando a fazer com que algumas de suas obras fossem embargadas. No entanto, profissionais de renome como Sérgio Rodrigues, Niemeyer e Lúcio Costa, saíram muitas vezes em sua defesa. Lúcio inclusive, solicitava o título de Arquiteto honoris causa para seu amigo, e, em 1991, entregou em mãos o tão sonhado título à Jose Zanine Caldas, reconhecendo-o como auto-didata.

Seu reconhecimento veio tardio, somente após sua obra ter conquistado espaço (inclusive no badaladíssimo Louvre, onde ganhou uma mostra lado a lado com Pablo Picasso).

Como conheci sua obra

Ainda na minha adolescência, lembro que uma amiga de minha mãe a encontrou no ponto de ônibus e disse: “Célia, ganhei uma mesa e 6 cadeiras da minha patroa. Tá cheia de cupim, mas ainda dá pra usar, quer?”.

E lá estávamos nós, com uma peça de Zanine em casa! Claro, não fazíamos ideia disso, e é provável que nem a amiga dela. Apenas lembro de minha mãe achar iradíssimo a forma dos pés da mesa e das cadeiras. Anos mais tarde, quando iniciei o curso de Design de Interiores, numa aula sobre a história do Design Brasileiro, me deparei com o modelo dos pés dos móveis ganhados. Faziam parte da Linha Z, que elevou o nome de Zanine e que agora, em 2019 acaba de ser relançada pela empresa Etel Design.

MUCA – Museu das Cadeiras Brasileiras

Espaço interno do MUCA com algumas cadeiras.
Interior do MUCA | Foto: Ruy Teixeira

O Museu das Cadeiras Brasileiras (MUCA) foi idealizado por Zanine de Zanine (filho caçula de Zanine Caldas, e um dos maiores nomes do design atual). Saiu do papel através da parceria com Daniel Katz (proprietário o imóvel que abriga o MUCA) e também com a Secretaria de Cultura de Belmonte. Foi inaugurado em comemoração do centenário de José Zanine.

A escolha de Belmonte se deu pelo fato de ser a cidade natal do arquiteto. A bela casinha branca que ao entardecer ganha tons de laranja, é a mesma que o viu crescer construindo presépios com as caixas de seringa do pai médico.

“Se cadeiras são como pessoas, o que as cadeiras brasileiras têm a dizer sobre o povo brasileiro? O talento, a desenvoltura, a ginga com a qual os brasileiros fabricam seus próprios produtos? As cadeiras dessa mostra contam histórias dos homens e mulheres que as usaram, seus interesses, o tempo em que viveram, os materiais disponíveis a ele e seu senso estético, inspirado pela natureza, arte e a própria cultura brasileira”

Christian Larsen

O Espaço, hoje totalmente adaptado à nova função, abriga um acervo de cadeiras dos Zanines (pai e filho) e de tantos outros designers brasileiros. Nomes como Irmãos Campana, Sérgio Rodrigues, Carlos Vergara se fazem presentes no acervo. A curadoria do MUCA ficou a cargo de Christian Larsen, curador do The Metropolitan Museum of Art de Nova York.

São peças de diferentes épocas do design nacional, criadas não só por designers, mas também por artesãos locais. O que torna o Museu das Cadeiras Brasileiras um espaço vivo e em constante evolução, que cumpre seu objetivo de registrar o legado do design nacional e da cultura do nosso povo.

O futuro do Museu das Cadeiras Brasileiras

Casarão do séc. XIX onde está previsto o Museu Zanine Caldas para o ano de 2020

O Museu como pode ser visto hoje, é apenas uma amostra do que ele pretende vir a ser. Posteriormente, o MUCA será transferido para o casarão que hoje abriga o Sindicato dos Agricultores. Do outro lado da rua. A casa onde de fato morou José Zanine, será abrigo de um museu em sua memória.

O espaço atual vem sendo pensado então, na intenção de tornar Belmonte um polo criativo. Com programas educacionais abertos à população Belmontense e estudantes de Design, o espaço recebe palestras e rodas de conversas.

Imagem do jardim aos fundos do MUCA com seu gramado e algumas cadeiras.
Espaço externo do Museu Das Cadeiras Brasileiras | Foto: Letícia Remião

Assista ao Documentário “Zanine, Ser do Arquitetar”, lançado em 2016

Como visitar o Museu das Cadeiras Brasileiras

O Museu das Cadeiras Brasileiras tem visita gratuita e funciona de quarta à sexta, das 09:00 às 12:00 / 14:00 às 17:00. E aos sábados e domingos, no mesmo horário, no entanto, é preciso que seja feito um agendamento prévio pelos telefones (73) 99811-4261 ou (73) 98107-1102. 

Site Oficial

Após um café da manhã em Ilha Grande, descobriu o prazer do intercâmbio cultural, que só fez aumentar a curiosidade desse sagitariano. Mas foi num voluntariado pela ONU em 2015, com os povos indígenas, que se viu transformado por completo. Passou a buscar o diferente cada vez mais e buscar experiências mais profundas em suas viagens. Apaixonado por design e fotografia, usa das cores para registrar o mundo que vê.

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