Muquifu: conheça o Museu de Quilombos e Favelas Urbanos, em BH

Muquifu

Dentre os tantos museus de Belo Horizonte, encontramos o Muquifu já quase nos dias de deixarmos a cidade. O Museu que estava a apenas quatro quadras do nosso endereço temporário, rapidinho ganhou um lugar único no nosso coração!

Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos: este é o nome completo desse lugar pouco conhecido ou visitado, embora esteja tão pertinho da Savassi, região queridinha de BH.

A temática é a periferia; suas histórias, seus sonhos e cotidiano… Em resumo, é sobre esse estar tão perto de áreas nobres da Capital, e ao mesmo tempo tão distante delas. O Muquifu é um museu sobre o povo, as lutas, a resistência.

A História do Museu

O Muquifu já foi um barracão de um cômodo só, que pertencia à Paróquia de Santo Antônio, e que foi ocupado por mulheres. Um dia, elas se depararam com uma placa na porta, anunciando a venda do imóvel. Todos sabiam que elas viviam ali, no entanto, não houve nenhum diálogo.

O padre da favela foi quem interviu. Mauro Luiz da Silva, que é também o curador do museu, conversou com a paróquia vizinha e resolveu tudo. O espaço pode, então, continuar sendo utilizado.

Como Museu, o Muquifu existe desde 2012.

Antes de continuar a leitura, assista a esse documentário feito pela Rede Minas sobre o Muquifu (menos de 20 minutinhos).

Documentário da Rede Minas sobre o Museu de Quilombos e Favelas Urbanos 

Nossa experiência no Muquifu

Foi numa dessas incessantes pesquisas para descobrir os tesouros escondidos das cidades, que encontramos o Muquifu. Apesar de não fazer parte das listas de “lugares imperdíveis” que vimos na internet, para nós, conhecê-lo era indispensável. Afinal de contas, uma das coisas que mais buscamos com a Expedição Pão de Queijo, é mostrar um pouco do que nem sempre é visto, lembrado, ou conhecido. Gostamos da descoberta do novo e da proximidade com as experiências. E quanto ao Muquifu, QUE EXPERIÊNCIA!

Depois de algumas esquinas e uma subida íngreme, chegamos. Bem, de acordo com o Google, a rua era aquela, e o número também. Havia uma árvore gigante, uma calçada de terra, e um muro grafitado como tantos outros em BH. Porém, nada que indicasse que aquele era, de fato, o lugar que procurávamos. Confiamos no endereço que tínhamos e enfim, entramos.

Carrinho de pipoqueiro na entrada do Museu Muquifu
Entrada do Museu Muquifu | Foto: Mallê

Uma escada, mais alguns graffites, outro lance de escadas. Um carrinho de pipocas e… uma igreja! “Ops! Não é aqui!” – foi o que pensamos. Entretanto, não conseguimos dar meia volta e ir embora, porque o que víamos (mesmo sem entender) era lindo demais!

E foi aí que o Alexsandro apareceu e nos deu as boas vindas! Uma boa conversa acompanhada de um delicioso chá: assim ele nos contou sobre o museu, e só então entendemos tudo (e descobrimos que estávamos mesmo no Muquifu).

O Museu e o Acervo

Logo depois de atravessarmos a porta, nos deparamos com uma igreja. Embora não fosse exatamente o que esperávamos ver, ficamos encantados com seus painéis que nos deixaram de boca aberta: as paredes tinham passagens da vida de Jesus; mas diferente do Cristo de olhos azuis e de sua mãe de traços finos, como sempre se vê, todos os personagens ali retratados eram negros.

A imagem de Nossa Senhora que está na igreja ter os traços de uma das moradoras do aglomerado, e é negra.
Nossa Senhora, esculpida com o rosto de uma das moradoras do Aglomerado | Foto: Mallê

Foram escolhidas 14 mulheres do Aglomerado Santa Lúcia, e cada uma protagoniza uma das sete dores ou sete alegrias de Maria, como são divididos os painéis que ainda não estão finalizados.

Além disso, os cenários onde os fatos se passam são locais da favela. No painel “Nascimento de Jesus”, por exemplo, os Reis Magos caminham pelas vielas da Vila Estrela, retratando a Caminhada Pela Paz ,que acontece no aglomerado todo dia 12 de outubro, desde 2000. A caminhada surgiu em um momento de grande violência na comunidade, e foi idealizada pela moradora Dona Emerenciana, que aparece no painel logo acima do menino Jesus, observando tudo pela janela de sua casa.

Painéis coloridos na parede da capela
Painéis da Capela: retratam a resistência das mulheres do Aglomerado | Foto: Thiago Kling

Apesar de estar em anexo à capela, o museu não tem relação direta com instituições religiosas. Dividem o espaço do que era um barraco, cresceu, e continua servindo à comunidade.

O Museu propriamente dito tem grande parte de seu acervo fruto de doações dos próprios moradores e vizinhos. São itens que contam suas histórias e, por consequência, a história da própria favela.

O Burrinho

Dentre todas as peças, o burrinho é o mascote do museu! Uma moradora do Aglomerado Santa Lúcia foi quem doou o bichinho feito de gesso, presente de seu irmão que, quando menino, ficava na porta dos comércios se oferecendo para ajudar a carregar compras em troca de algum dinheiro. Segundo contam, uma mulher o chamou para trabalhar em sua casa, alegando que suas filhas não podiam fazer as tarefas, já que tinham que estudar. Depois de trabalhar muitos anos naquela casa, ganhou de presente o burrinho, que já não tinha serventia para a família porque a orelhinha e a pata estavam quebradas. Ele colou as partes e deu de presente para sua irmã.

Burrinho de gesso, ítem do acervo que é símbolo do museu.
Burrinho: peça símbolo do museu | Foto: Mallê

A reflexão acerca do burrinho de carga permeia as discussões mais atuais sobre exploração, falta de oportunidades, e a realidade de pessoas que têm nos subempregos suas únicas alternativas.

Salas em Anexo

Há duas pequenas salas que remontam o ambiente de trabalho de profissões que ainda são as mais comuns dentro da favela. No primeiro andar, um quartinho apertadinho, onde mal cabe uma cama. Fala sobre o dia a dia das empregadas domésticas. Junto dele, fogão, vassouras e outros objetos, além de uma coleção de bonecas vestidas com os polêmicos uniformes.

No segundo andar, a salinha com o chão coberto de britas e paredes forradas de lonas, dá vida a um “muquifo”: como os pedreiros chamam o pequeno cômodo onde guardam suas ferramentas e apetrechos de trabalho.

Exposição simula um quartinho de ferramentas de pedreiros
Quartinho de muquifo: exposição permanente do museu | Foto: Thiago Kling
Marmita de alumínio e capacete, ítens usados por pedreiros
Detalhes: marmita e capacete usado em obras | Foto: Mallê

Manifestações de Matriz Africana

Ainda no segundo andar estão alguns instrumentos musicais e vestes típicos de manifestações culturais e religiosas, como os Congados, tradição brasileira com forte influência dos povos negros, que têm Nossa Senhora do Rosário como padroeira.

Exposição de fotografias e instrumentos de congado
Objetos e fotografias sobre grupos de congado da Vila Estrela | Foto: Thiago Kling
Standart de congado da Vila Estrela
Standart do congado | Foto: Mallê

Todo o acervo guarda, em sua simplicidade, peças cheias de valor. E definitivamente não estamos falando de valor financeiro. São coisas que têm alma. São parte da história de cada um dos moradores do Aglomerado Santa Lúcia, e que são a razão do museu existir. Homens, mulheres, crianças, senhoras e senhores. Dona Neném, Tia Ia, Dona Santa, Dona Jovem, e tantas outras mulheres cheias de força.

Peças doadas pelos moradores fazem parte do acervo do museu
Peças doadas pelos moradores | Foto: Mallê.

Quem mora ali, na favela, costuma dizer que vai “à cidade” quando se refere ao centro ou a outros bairros fora do Aglomerado. Esta frase marca… Por que mesmo estando dentro da cidade, não se sentem parte dela?

Fotos de moradores da favela, em seu cotidiano.
Fotos doadas pelos moradores mostram cenas cotidianas deles na favela | Foto: Mallê

Apoie!

O espaço conta com a ajuda de um financiamento coletivo para manter as atividades. Você pode contribuir com valores a partir de R$ 1,00 (sim, um realzinho por mês!).

Clique aqui para saber mais e apoiar o projeto!

Visite o Muquifu

– Endereço:
Rua Santo Antônio do Monte, nº 708, Bairro Santo Antônio

– Horário de Funcionamento:
Segunda a Sexta, de 13h às 18h (outros dias com agendamento)

– Entrada: Gratuita

Acesse a página do facebook do Muquifu para saber mais, e conferir os horários de funcionamento!