Mulher viajando sozinha? Tá pedindo pra algo acontecer!

Mallê em Ravena, distrito de Sabará/MG

Antes de me casar, ter filho, formar minha família mochileira, eu era uma mulher viajando sozinha. Embora seja uma experiência que assusta muita gente, pude aprender e entender na prática como as coisas são, de fato.

Ver uma mulher viajando sozinha causa surpresa e desconforto, afinal, ainda existe muito tabu envolvendo a liberdade feminina. Algumas situações e lugares não são pra nós, pelo menos não enquanto desacompanhadas de um homem (dizem)! E quem se atreve, “não tem o direito de reclamar”!

Começando do começo…

Minha primeira viagem de carona foi na companhia de uma mulher. Éramos só nós duas e a sorte. Priscila e eu não usamos aplicativos para este fim; apenas fomos para a beira da estrada e esticamos os polegares! Aliás, nem sei exatamente quantas vezes fomos chamadas de “loucas” pelas pessoas que encontramos pelo caminho.

Priscila e eu de carona na carroceria de um carro, indo para um atrativo turístico da cidade.
Carona em carroceria | Foto: Arquivo Pessoal
Priscila e eu viajando de carona em um ônibus escolar quebrado
Pri e eu, de carona em um ônibus escolar quebrado | Foto: Arquivo Pessoal

Não passamos por nenhum episódio desagradável, de violência ou assédio. Entretanto em alguns momentos, nos sentíamos, inseguras. Mesmo sem entender o porquê.

A viagem foi uma delícia! Mas, algumas semanas depois, minha fiel escudeira foi para o exterior. Chegavam os finais de semana e feriados e eu, mesmo exausta com a rotina da faculdade e precisando viajar para ventilar as ideias, ficava em casa. Estudante universitária lá tinha dinheiro de comprar passagem? E de carona sozinha eu não arriscava, cercada pelo medo. Normal, eu pensava. Mas a verdade é que eu não havia passado por nenhuma situação na estrada que justificasse o medo.

Decidi respirar fundo e encontrar coragem dentro de mim. Só que antes de encontrar essa bendita, achei mais medo! A vontade de ir era grande. A necessidade de espairecer era maior ainda! E essa guerra entre querer e não poder me dividiam. Mas eu não podia por que mesmo??

De onde o medo vem?

Foi quando as perguntas apareceram que as coisas começaram a mudar de rumo. As respostas pra tanto questionamento faziam meu medo ter cada vez menos sentido! Mulher viajando sozinha não pode, porque é perigoso, inseguro, arriscado demais… Em outras palavras, eu não podia porque as pessoas me diziam que não!

Acredite em mim: com algumas exceções, essas pessoas não fazem por mal. É por amor, cuidado, e por você ser tão importante pra elas, que se sentem na obrigação de te proteger de tudo.

Se der medo, vai com medo mesmo!

Arrumei minha mochila pra diminuir as chances de desistir da viagem. Fui em busca de todas as informações possíveis. Mais uma vez, foi uma mulher viajante quem me ensinou como pegar carona de onde eu estava até o lugar para onde eu ia (melhor lugar, horários, etc).

No dia da viagem, tentei não pensar muito no que poderia acontecer. Fui ao centro de Belo Horizonte, peguei um ônibus que me deixou na saída da cidade, avistei o posto de gasolina do qual me falaram. Coloquei a bolsa no chão, em um gramado no acostamento. Levantei minha plaquinha e estiquei o polegar.

Não sei descrever o que estava sentindo. As pessoas no ponto de ônibus e de cima do viaduto arregalavam os olhos e apontavam: uma mulher viajando sozinha de carona?! Em outras situações, eu me sentiria incomodada. Mas dessa vez, parecia mais com euforia. Uma mistura de ansiedade, medo, satisfação de ter chegado lá e de me desafiar.

Não demorou muito pra que o primeiro carro parasse. Estava indo para o estado do Rio pela primeira vez e o caminhoneiro me levaria até Juiz de Fora. De JF, um segundo caminhoneiro me levou até Petrópolis, onde eu ficaria. Cheguei sob chuva e muito frio, mas com uma sensação de libertação inexplicável!

Antes de viajar com minha família, eu era uma mulher viajando sozinha
Eu, de carona sozinha | Foto: Arquivo Pessoal

Depois daquele dia, foram outras tantas viagens. Com amigos, com meu marido, com meu filho… Em todas as vezes, ouvi sempre a mesma pergunta: “Mas você não tem medo?”. Eu estaria mentindo se dissesse que não. Tenho medo porque há riscos.

Perigoso como comprar pão

Costumo dizer que um mulher viajando sozinha corre tantos riscos quanto quem vai à padaria do bairro. Então, o que te dá a sensação de segurança é o fato de o percurso ser conhecido e de você já ter feito o mesmo trajeto várias vezes sem que nada acontecesse.

Nenhum lugar está totalmente fora de risco. O que se pode fazer é tomar os cuidados necessários. “Mas tomar cuidado pra comprar pão? ?”. É! Pensa bem… Você vai pela calçada, atravessa na faixa de pedestres, olhando para os dois lados, não deixa o dinheiro a vista na rua… Embora nada disso elimine os riscos, diminui a possibilidade de que algo ruim aconteça.

E assim fazemos: avisamos alguém para onde estamos indo, temos o cuidado de manter o celular carregado, enviamos mensagens ou ligamos ao chegar. Enfim, há muitas formas de uma mulher viajando sozinha manter a segurança na estrada!

A vítima não tem culpa!

Cada vez mais temos nos deparado com a responsabilização e culpabilização de vítimas nos mais diversos contextos. Vem cá! Vamos conversar um minutinho sobre isso? Prometo que vou ser breve.

Kelly Kadamuro de 22 anos foi assassinada por Jonathan Pereira do Prado depois de dar carona a ele, combinando por um app. Após a notícia, as pessoas a culparam por ter dado carona a um estranho. Maria José Coni e Marina Menegazzo, argentinas, foram mortas no Equador durante um mochilão. A notícia foi compartilhada por pessoas que as culpavam por terem se hospedado na casa e estranhos, e as manchetes ressaltavam o fato de que estavam viajando “sozinhas” (mesmo estando em duas pessoas; o que obviamente referia-se ao fato de estarem desacompanhadas de um homem).

Marina e Maria José, mochileiras assassinadas no Equador
Marina e Maria José foram assassinadas quando mochilavam juntas | Foto: TN

A minha pergunta é: por que é errado confiar nas pessoas? Não deveria ser o normal? Por que elas estão erradas se foram eles que agiram de má fé, abusaram da confiança e da generosidade delas? É difícil entender que a vítima seja culpada de sua própria morte! Em que mundo a gente vive, pro erro não ser atribuído a quem cometeu um assassinato?? Enquanto isso, na mídia, grande parte dos casos se quer revela o nome dos criminosos, que têm a “identidade preservada” através de termos genéricos como “jovens de 33 anos”.

Ou seja, é aquele “não poder” pelo simples fato de sermos mulheres!

Mulheres Viajantes

Fatos como estes nos entristecem e revoltam. Mas também despertam e movem. Desde que esses casos aconteceram, incontáveis manifestações aconteceram no Brasil e no mundo, gerando comoção e levantando importantes questões quanto à nossa segurança e liberdade para fazermos aquilo que desejarmos.

Em São Paulo, a historiadora Thaís Carneiro deu início ao projeto Mulheres Viajantes, para contar histórias de quem encara o mundo e mostra que a gente pode! Os relatos são publicados no blog do projeto, e têm poder de encorajar e libertar! Ver tanta mulher viajando sozinha faz a diferença pra quem ainda tem medo.

Mallê conversando com viajantes no Mulheres Viajantes vai às ruas, em BH
Participando do “Mulheres Viajantes” Vai às Ruas, em Belo Horizonte | Foto: Léo Lobato

Mulher viajando sozinha? Tá pedindo pra algo acontecer!

Não é por “pura rebeldia”, sabe? Muito menos “dar sorte pro azar”! Tudo o que a gente pede pra que aconteça é mudança! Eu sou mulher, mãe, filha, esposa, irmã, amiga. Eu sou uma pessoa com direito de ir e vir. Como e quando eu quiser. No horário que eu quiser. Com a roupa que eu quiser. Eu não quero ser abusada, violentada ou morta. Eu jamais pediria isso. Quero sair e voltar em segurança pro abraço de quem me ama e me espera em casa.

Tenho certeza que quem conhecia essas e tantas outras mulheres que tiveram suas vidas interrompidas, continua vivendo de saudade, com os braços vazios. Esperando elas voltarem com as fotos e histórias do que viveram. E nada supre a ausência. Da mesma forma que nada justifica o que aconteceu.

A gente pede pra algo acontecer! Pede pra andar na rua em paz. No ônibus, no metrô, na festa… Pede respeito.

Ver tanta mulher viajando sozinha mostra que nós podemos, e vamos lutar cada vez mais pelo direito de ocupar espaços. Seja qual for. Seja como for.

Nenhuma a menos!