Janela do Céu: a trilha até o cartão postal do Parque Estadual do Ibitipoca

Janela do Céu em Ibitipoca

Quando se fala em Ibitipoca, a primeira imagem que vem à cabeça é da Janela do Céu! Pra quem ainda não conhece, é bem provável que em uma breve pesquisa no Google ou Instagram você se depare inúmeras vezes com fotos dela. Para chegar ao principal cartão postal do Parque Estadual, é preciso encarar uma longa caminhada de 16 km (ida e volta). Mas a trilha reserva muito mais do que a famosa atração no final. O trajeto tem cenários de tirar o fôlego!

O vilarejo de Conceição do Ibitipoca teve seu boom turístico há pouco tempo. Desde então, recebe uma enorme quantidade de turistas que chegam de todos os lugares do Brasil e do mundo. Embora existam outros roteiros dentro e fora do Parque, quase todas as pessoas querem conhecer a famosa Janela do Céu.

Muito antes de nos conhecermos, Thiago já havia feito a trilha, no seu primeiro mochilão em 2014. De volta à vila em nossa companhia, ele nos convidou para encarar a subida. Aceitamos, mas sem qualquer expectativa de chegar lá em cima: além do fato de eu ser extremamente sedentária, estávamos com o Gilberto, e imaginamos que por ele ser criança, seria bem puxado fazer o circuito inteiro.

Da Vila ao Parque

Deixamos o centro da vila por volta das 8 horas da manhã. Como era meio de semana, não havia o risco de chegar lá e já estar lotado. Mas também, o fato da vila estar vazia fez com que a gente não conseguisse carona. Assim, tivemos que caminhar até a portaria.

Nota: o horário que fomos não é o melhor! O Parque abre às 7h; nos finais de semana e feriados, às 6h já começa a ter fila na portaria, e às 8h geralmente já foi atingido o limite diário de visitantes. Além disso, o Circuito Janela do Céu é o mais longo; saindo tarde, fica mais difícil conseguir chegar ao final e ter tempo de conhecer as atrações do caminho, para ainda voltar à saída antes do horário de fechar!

Da vila até a entrada são 3 km: o primeiro quilômetro é todo plano; o segundo é quase todo plano, com exceção do final que começa a inclinar; já o terceiro é bastante íngreme.

Nota: Para quem preferir, existe uma kombi que faz o traslado Vila – Parque. O ponto de partida é em frente ao Supermercado Ibralândia, e custa R$ 15,00 por pessoa (valor de maio/2018).

Chegando à recepção, assinamos uma lista (nome e documento de identidade) e um termo de resposbilidade confirmando que estávamos vacinados contra febre amarela (fique atento a possíveis mudanças, pois recentemente só era possível entrar apresentando o cartão de vacina). Nesse mesmo local é pago o valor da entrada.

Trilha até a Janela do Céu

Da portaria até o início da trilha é preciso caminhar cerca de 1 km (todo plano), até uma bifurcação. Indo para a direita, chegaríamos ao Centro de Visitantes e Circuito das Águas. Então, é só pegar o caminho da esquerda (ele está “fechado” com uma corrente, mas é apenas para que os carros não subam; dá pra pular ou passar ao lado).

Nota: Todo o caminho é muito bem sinalizado, com placas em todas as bifurcações e trechos que possam gerar qualquer dúvida. Não é necessário contratar um guia!

Placas indicando trilhas no prque
Placas indicando trilhas e corrente impedindo passagem de carro | Foto: Mallê

Deste ponto até a Janela do Céu são cerca de 8 km, que não podem ser percorridos de outra forma se não a pé. O começo da trilha é íngreme, mas rodeado por vegetação que oferece alguma sombra.

Depois de dois ou três quilômetros, o cenário começa a mudar e a vegetação é mais rasteira. Tivemos sorte, pois o clima estava frio (17°C) e bastante nublado. Apesar de atrapalhar um pouco a visibilidade (da paisagem, não do caminho), é o ideal para aguentar a andança sem sol forte na cabeça.

Cruzeiro e Gruta da Cruz

Seguimos bem pelo primeiro trecho, e chegamos ao Cruzeiro, onde fizemos nossa primeira parada. Ao redor dele existem alguns banquinhos, ótimos pra descansar e apreciar a vista. Uma curiosidade: todos os anos, no mês de Maio, este é o cenário de uma celebração já tradicional em Ibitipoca, com procissão e missa de ação de graças.

Cruzeiro em meio às montanhas.
Cruzeiro, na subida para a Janela do Céu | Foto: Mallê

Abaixo do Cruzeiro está a Gruta da Cruz. O acesso a ela se dá por meio de uma descida entre a vegetação que forma uma espécie de túnel. Mais uma vez, tudo com placas de indicação. Os trechos mais complicados contam com tablados de madeira e corrimão, oferecendo mais segurança aos visitantes.

A gruta é bem bonita! São dois espaços: o primeiro é um salão com uma cratera no teto, por onde pendem algumas plantas e entram raios de sol bem tímidos. Nele, há uma escada que dá acesso ao segundo espaço. Assim como no anterior, encontramos uma escada. Ela leva a uma fenda entre as pedras, passagem estreita de saída da gruta.

Interior da Gruta da Cruz
Gruta da Cruz | Foto: Thiago Kling

Enquanto subíamos por ela, Gilberto travou! Queria voltar porque estava com medo. Chorou um tanto! Insistimos, mas nada dele ir. Thiago passou na frente, e estendeu a mão. Só assim (e ainda chorando) foi que ele atravessou.

Nota: A passagem é apertada e úmida. Olhando de baixo, dá mesmo a sensação de que a perna não vai alcançar o chão atrás da escada, ou que talvez não dê pra passar. É um trecho bem curtinho, de poucos metros, há menos de meio minuto da saída. Porém, se você tem problemas com lugares apertados, prefira voltar pela mesma trilha de entrada.

Lombada

Continuamos a caminhada. Cerca de 1.500 metros depois do Cruzeiro, está a Lombada, o ponto mais alto do Parque, com 1784 metros de altitude. Conforme vamos aproximando do topo, o caminho vai ficando cada vez mais plano.

Foto do Pico da Lombada, ponto mais alto do Parque Estadual do Ibitipoca.
Pico da Lombada, ponto mais alto do Parque Estadual do Ibitipoca | Foto: Thiago Kling

Há uma pedra reta, como um platô na beira da Serra, que serviu não só para fotos, como também pra um bom descanso! Afinal, desafiar meu sedentarismo em uma trilha tão longa não estava nos meus planos!

De lá se tem uma vista incrível! Essa é a hora em que o tempo nublado pode não ajudar tanto, mas para nossa sorte, o sol já estava aparecendo! Embora estivesse tudo um pouco embassado, ainda assim pudemos ver o mar de montanhas lá embaixo.

Montanhas da Serra da Mntiqueira vistas do alto da Lombad, em Ibitipoca.
Montanhas da Serra da Mantiqueira vistas do Pico da Lombada | Foto: Thiago Kling

Depois da Lombada, ainda faltam quase 4 km até a Janela do Céu. Entretanto, quase tudo dali pra frente é plano ou descida. Dizem que “pra baixo, todo santo ajuda”, mas foi nessa hora que comecei a sentir o joelho. Eu já tinha chegado além do que imaginava que conseguiria a princípio. Então, tudo certo! Fiquei um pouco preocupada se conseguiria fazer a volta (nem tinha ido e já estava assim!), mas seguimos.

Grutas: Fugitivos, Três Arcos e Moreiras

Lá se foram mais 1.300 metros. Aliás, a essa hora, já tinha sol! Chegamos a várias placas que indicavam mais grutas (eu já disse que é tudo bem sinalizado? rs).

A Gruta dos Fugitivos é comprida e tem alguns salões. Ela é chamada assim porque foi usada como abrigo antigamente, pelos escravizados que conseguiam escapar da crueldade dos fazendeiros.

Nota: É aconselhável o uso de lanterna para atravessá-la, por ser escura e ter o chão bem desnivelado. O Parque não empresta lanternas. Portanto, lembre-se de levar a sua ou de passar no Centro de Visitantes antes de subir, para comprar uma na lojinha de suvenirs. A lanterninha do celular também serve!

Foto contraluz da entrada da Gruta dos Fugitivos.
Gruta dos Fugitivos | Foto: Thiago Kling

Do outro lado da Gruta dos Fugitivos está a Três Arcos. Maravilhosa! Ao entrar nela, dá pra entender rapidinho o porque do nome. Suas três saídas são bem altas e arqueadas, dão passagem a muita luz e formam um cenário fantástico! A água da chuva que passa pelas rochas chega lá embaixo cristalina! E a umidade do ambiente faz com que o tronco das árvores fique completamente coberto de musgo bem verdinho!

Não fomos à Gruta dos Moreiras. Até pensamos que tínhamos passado por ela (confundimos com um dos salões da Gruta dos Fugitivos). Mas só na volta descobrimos que apesar das placas estarem juntas, a seta para ela apontava para o outro lado! De qualquer forma, não teria dado tempo, pois fomos num ritmo muito lento, e depois das grutas, ainda faltavam mais de 2 km.

Janela do Céu

A trilha começou a descer bastante. A impressão que dava era de que não chegaríamos a lugar nenhum! Mas logo apareceu mais uma bifurcação com placas. Seguimos para a esquerda, até a Janela do Céu (a 300 metros dali).

É preciso descer uma escada de madeira par acessá-la. Enfim, estávamos lá! Eu, menos acabada do que esperava. E Gilberto inacreditavelmente tranquilo!

Sobre o lugar… O espaço não é grande. Uma pequena área com um poço de água muito vermelha (apelidada de água de Coca-Cola ou de Ouro) e geladíssima, pois a mata ao redor não permite que os raios do sol cheguem no rio. Logo à frente, a tão cobiçada abertura na montanha, com vista para o céu! Quando estivemos lá, não haviam muitas pessoas, apenas um grupo de três amigas, e uma família (o casal e três filhas). Dessa forma, não tivemos dificuldades.

Nota: Em finais de semana e feriados, é comum que a fila para a Janela do Céu chegue a 1 km, e a espera para fazer uma única foto seja de 3 horas.

Cachoeirinha

Não ficamos muito na Janela do Céu. Subimos tarde, caminhamos devagar, então, não teríamos muito tempo mais. Voltamos à ultima bifurcação e seguimos por mais 600 metros (dessa vez, pela trilha da direita), para conhecer a Cachoeirinha. A descida até ela é por um caminhozinho estreito, que pediu um pouco de cuidado por estarmos com criança, mas nada que não pudesse ser resolvido apoiando as mãos no chão vez ou outra.

A Cachoeirinha fica dentro de um buraco, em meio às montanhas. Onde o sol só chega em horários quando está bem alto no céu, e venta bastante! Mas a vista enche os olhos: ilhotas de bambu em uma areia muito branquinha pareciam ter sido plantadas daquela forma propositalmente por algum paisagista. Logo adiante, a queda d’água estreita desce por um paredão verde. A água vermelha reflete as pedras que parecem ter sido empilhadas. Um mini oasis!

Paredão com pedras em camadas, que parecem empilhadas, cobertas de musgo.
Paredão da Cachoeirinha | Foto: Thiago Kling

Eu que achei que não ia aguentar, fiquei um tempo sentada, num descanso quase meditativo. Thiago fotografava e Gilberto corria pra água congelante, sem qualquer sinal de cansaço, e sem ter reclamado nenhuma vez em toda a trilha! Brincava, pulava, e custou aceitar que era preciso ir embora. Infelizmente, precisávamos voltar, pois tínhamos um longo caminho ainda.

A Volta

Não olhamos o relógio na ida. Saindo da Cachoeirinha foi que vimos que já passava das 15:30h! O Parque fecha às 17h, e não conseguiríamos chegar à portaria a tempo. Descemos o mais rápido possível. Mas a volta pega! Aquele trecho que descemos da Lombada até a Janela, agora era subida! Em compensação, depois dá pra acelerar!

Mesmo atrasados, paramos algumas vezes no caminho, pois o sol estava baixando, e as cores do céu e das montanhas estavam estonteantes!

Montanhas ficando laranjadas no pôr do sol.
Pôr do sol em Ibitipoca, visto do Parque Estadual | Foto: Mallê

Certamente você percebeu que fui um tanto mais enfática ao falar da Cachoeirinha do que da própria Janela do Céu… Bem, é bastante pessoal o que vou dizer: acho que pela distância percorrida, pelo tempo gasto pra chegar lá em cima, falta alguma coisa, sabe? A vista é linda, o titulo de cartão postal é merecido… Mas EU senti uma pontinha de frustração (não me julguem!), que só se desfez ao chegar na Cachoeirinha, porque foi nela que senti que todo o esforço valeu a pena.

Lá, havia um casal que não concordava conosco, e afirmava com todas as letras que a Janela do Céu é imbatível! Eventualmente encontramos pessoas que se sentiram como a gente, e outras, como eles. Em resumo: você precisa ir! Viver a experiência e descobrir a (sua) verdade.

Dicas para quem vai à Janela do Céu

  • Chegue cedo: recentemente o limite diário de visitantes do Parque foi reduzido. A medida foi tomada para que ele tenha condições de se recuperar. Se antes recebiam até 1.200 pessoas por dia, hoje não permitem mais que 600! E estejam atentos ao planejarem uma visita: a previsão é de que outras mudanças também sejam implantadas (leia a notícia aqui).
  • Leve água: não existe nenhum lugar da trilha com água. O ideal é carregar com você o suficiente para a ida e a volta. Mesmo em dias frios a gente se desidrata.
  • Recolha seu lixo: se você tem a oportunidade de visitar este lugar incrível e estar em contato com a natureza, é porque um dia alguém se preocupou em preservar. Retribua cuidando. Não deixe resíduos!
  • Para conhecer um pouquinho mais do Parque, você pode voltar por um caminho diferente do que foi, seguindo as placas adiante. É um pouco mais longo, mas compensa se estiver com tempo suficiente!
  • É possível ir com criança! Mas respeite o ritmo dos pequenos e esteja disposto a interromper a qualquer momento, enquanto ainda tiverem energia para voltar de onde vocês estiverem.
  • Leve lanche: a caminhada dura horas e não existe nada no caminho! A única lanchonete do Parque fica perto do Centro de Visitantes.
  • Não é permitido entrar com animais.

Não seja um Humberto!

Muito além de um ponto turístico, o Parque Estadual do Ibitipoca é uma unidade de conservação ambiental. Nele, vivem inúmeras espécies animais e vegetais em risco de extinção, que dependem da preservação da área para continuarem existindo.

Algumas atitudes podem ser vistas como “inocentes”, mas causam prejuízo ao local. Vai além da falta de consciência de quem polui. Colher plantas ou inserir outras espécies, retirar pedras, desgastar superfícies… Até mesmo o atrito dos sapatos com o solo causa sérias alterações, que já podem ser notadas: em alguns trechos, as trilhas estão até um metro abaixo do nível original, e a areia com a qual estão cobertas é, na verdade, a mesma pedra da qual a montanha é formada, mas que está se desfazendo com o alto fluxo de pessoas.

Parede da Gruta dos Três Arcos com o nome Humberto escrito por um turista.
Não seja um Humberto! | Foto: Thiago Kling

Então, não faça como o Humberto! Deixe para mostrar às pessoas que você esteve aqui através das fotos que você fizer. As hashtags das redes sociais são mais adequadas para isso do que as paredes das grutas.

Imagine se todo mundo que passa por ali fizesse o mesmo? Com o Parque recebendo tantos turistas, o resultado seria catastrófico (ainda mais do que já é). Então, deixa o costume de escrever em grutas na pré história!