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No nordeste de Minas Gerais está o Vale do Jequitinhonha. Ele se estende desde a cidade histórica de Serro, até o estado da Bahia. Aliás, você sabia que algumas cidades baianas também fazem parte do Vale? Sabia que seu artesanato é mundialmente famoso e premiado? Tem mais: você sabia que uma vez por ano, todas as cidades do Jequi se reúnem em um só lugar para celebrar sua cultura popular? Nos últimos três anos, estivemos no Festivale. E hoje, escrevo sobre ele, pra mostrar um lado do Vale do Jequitinhonha que você talvez nunca tenha ouvido falar!

Vale do Jequitinhonha

O que você sabe sobre o Vale do Jequitinhonha? Vale da pobreza, da fome… Essa é a imagem feita dele ao longo de décadas. Isso porque a ONU, no ano de 1974, declarou que a região estava entre as mais pobres do mundo, referindo-se a ele como “Vale da Miséria”. Assim ele foi noticiado pela mídia por anos a fio. É dessa forma que o Brasil o enxerga até hoje.

Vale do Jequitinhonha
Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais | Foto: Thiago Kling

É fato que ainda existem baixos indicadores sociais, afetados pela localização geográfica e condições climáticas áridas. Tudo isso agravado principalmente pelo descaso do poder público. Apesar disso, essas terras banhadas pelo Rio Jequitinhonha merecem um novo olhar. Há muita beleza sob a sombra do estereótipo criado.

O Vale e Eu

Nasci no Vale do Jequitinhonha, na cidade de Capelinha. Desde muito pequena tive contato com a sabedoria popular através de grupos folclóricos, festejos religiosos, o rezo das benzedeiras, as rendas de bilro da minha avó, o grupo de seresta no qual meu avô tocava bandolim…

Mas foi só quando cresci que entendi a importância de falar sobre o lugar de onde eu vim, e da sua riqueza desconhecida. Para falar, no entanto, era preciso conhecê-lo de verdade, além das memórias afetivas de infância, da cidade natal.

Meu primeiro contato com o Festivale

A vontade de explorar o Vale do Jequitinhonha latejava. Oportunamente, Capelinha sediou em 2008 o Festivale. Até então, eu nunca havia ouvido falar do evento. Mas não demorou muito pra que eu me apaixonasse!

Era algo muito especial acontecendo. As ruas, antes paradas, acostumadas apenas com os mesmos passos de todos os dias, agora estavam cheias de cor, decoradas de chita. Havia música tocando em cada esquina. Pessoas diferentes, que falavam a língua que eu queria ouvir: cultura popular brasileira.

Durante os dias de evento, não deu pra assimilar muita coisa. Um turbilhão de sensações. Só depois, com a praça vazia, de volta à rotina, foi que me dei conta de que havia acontecido ali um dos maiores festivais de cultura popular da América Latina. Por uma semana, aquele gigante morou no meu quintal.

O Festivale

Segundo Deolinda Alice dos Santos, em seu livro Festejos Tradicionais Mineiros: Registros da Fé e do Folclore, “vários projetos culturais tornam a população mais corajosa e ousada em buscar melhoria da qualidade de vida a partir de seus valores regionais“. E foi exatamente em busca de dar voz à cultura, arte e artistas, e mostrar um outro lado do Vale (que nunca tem vez na mídia), que surgiu, há quase 40 anos, o Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha (Festivale).

Ano após ano, o festival vem acontecendo em diferentes municípios. Uma semana inteira dedicada às suas mais diversas manifestações: poesia, artesanato local, música, rodas de ciranda, marujada, teatro, dança, etc.

Vale dizer que o Festivale é, acima de tudo, um ato político. Teve início ainda em tempos de Ditadura Militar, quando um grupo de jovens decidiu se movimentar para mudar a realidade da época. Uniram-se e percorreram várias cidades para a criação de um jornal, que posteriormente deu origem ao evento como é hoje.

Festivale enquanto ato político
Posicionamentos políticos ativos durante o Festivale já são marca do evento | Foto: Mallê

Há a consciência de que a educação, a arte e a cultura, são potenciais transformadores sociais. Apoiado nisso, o movimento utiliza-se do momento de união e confraternização para promover conhecimento, reivindicar direitos, quebrar preconceitos, dar visibilidade a importantes causas (indígena, LGBTQI+, de negros e quilombolas).

Causas LGBTQI+ na Noite Literária
Murilo levanta causas LGBTQI+ com poesia na Noite Literária | Foto: Mallê

Festivale na Bahia

Cada ano, uma cidade do Vale do Jequitinhonha é escolhida, por meio de edital, para sediar o Festivale. Já foram palco as cidades mineiras de Araçuaí, Minas Novas, Pedra Azul, Padre Paraíso, Felício dos Santos, Felisburgo, dentre outras.

Este ano (2019), pela primeira vez, o evento aconteceu em terras baianas! Pois é… Pra surpresa de muita gente (inclusive a minha), algumas cidades da Bahia fazem parte do Vale do Jequitinhonha. Isso porque o rio atravessa a divisa dos estados para desaguar no mar, e marca com seu nome lugares de lá também. Nesse percurso, passa por Itapebi e Belmonte.

Quem sediou a 36ª edição do Festivale foi a cidade de Belmonte, foz do Rio Jequitinhonha. A escolha da cidade teve como um de seus objetivos promover o diálogo entre os dois lados do Vale, o mineiro e o baiano, de modo a somar forças e disseminar a cultura, sem fronteiras.

Festivale na Bahia
Primeiro Festivale no estado da Bahia, contou com grupos locais | Foto: Thiago Kling

Nota: O Vale do Jequitinhonha já pertenceu à Bahia, mas passou a integrar o estado das minas gerais no final do século XVIII, quando descobriram diamantes e outras pedras preciosas no Tijuco (atual região de Serro e Diamantina).

Resumindo o Festivale

  • O que é?

    Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha – atualmente, o maior festival de cultura popular da América Latina, acontecendo há tantos anos, organizado por uma associação sem fins lucrativos.
  • Onde?

    A cada ano acontece em uma das cidades do Vale do Jequitinhonha. Um edital é aberto para que os municípios se inscrevam, e um deles é escolhido de acordo com requisitos pré-estabelecidos.
  • Quando?

    Embora não tenha uma data certa, a semana do Festivale está sempre no final de julho, sendo que algumas vezes chega aos primeiros dias de agosto.

E afinal, o que o Festivale tem?

Oficinas

Para quem participa do Festivale, são oferecidas oficinas diversas. A cada edição, os cursos mudam. Já foram ministradas aulas de Fotografia, Modelagem em Argila, Arte Circense, Dança Afro, Percussão, Musicalização, Culinária Local, Construção de Boi de Janeiro, Cultura Indígena, Direção Teatral, Formação de Agentes Culturais, dentre tantas outras.

Gilberto participando da oficina de Modelagem em Argila
Gilberto participando da oficina de Modelagem em Argila no 35º Festivale | Foto: Mallê

Além de aprender algo novo e receber certificado, participar de uma das oficinas tem outras vantagens, como direito a hospedagem (alojamento coletivo em colégios), café da manhã, almoço e jantar, durante todos os dias do evento.

Quem tem interesse deve ficar atento: as inscrições para as oficinas são abertas algumas semanas antes (não há uma data específica). É divulgado no Facebook da Fecaje (Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha). Basta preencher o formulário com seus dados, a oficina que deseja fazer, e pagar a taxa. Na última edição, o valor por pessoa foi de R$ 100,00. E atenção: as turmas são pequenas, portanto, vagas limitadíssimas!

Aqueles que desejam ministrar cursos também podem acompanhar a página da Fecaje e, na data especificada por eles, enviar sua proposta. Caso seja escolhida, eles entrarão em contato para acertar detalhes como materiais necessários, valores, etc.

Nota: Se você tem intenção de levar seu filho, verifique a faixa etária indicativa para participação do curso. Está especificado no edital de inscrição.

Rodas de Conversa

Como foi dito, o Festivale busca cumprir sua função social. Vai além do comum através de seu ativo posicionamento político, sua militância e apoio a iniciativas e projetos.

Ao longo da semana de festival, acontecem, em média, 3 rodas de conversa, reunindo representantes de quilombos, ONG’s, etnias indígenas, e de diversos movimentos – MTST, feminista, LGBTQI+, etc. Os debates são abertos à participação da população da cidade que sedia o evento, que pode, inclusive, apresentar suas demandas.

Feira de Artesanato

Grande parte do artesanato comercializado em galerias de arte do país, são do Vale do Jequitinhonha. Quem nunca se deparou com uma de nossas tradicionais bonecas de barro em uma vitrine?

Artesanato do Vale do Jequitinhonha
Artesanato em barro, típico do Vale do Jequitinhonha | Foto: Mallê

Mas nem só de barro vive a arte do Jequi! No Festivale, acontece uma grande feira onde artesãos de diversas cidades expõem e vendem suas peças feitas a partir de uma infinidade de matérias-primas: sementes dão vida a bio-jóias e quadros; fibras de bananeira viram potes, cestos e bandejas; cabaças viram imagens de santos e bonecas. Ainda tem bordados, rendas, peças em couro, madeira, e tudo mais que a criatividade permite.

É de lá que a gente trás pra casa uma lembrancinha do evento, sempre dando preferência a um artista da cidade onde estamos.

Noite Literária

A literatura é imprescindível na educação de um povo. E por isso, tem no Festivale um espaço de destaque. Considerada como a “noite de gala” do evento, a Noite Literária acontece no meio da semana (geralmente, na quarta-feira). A cada ano, um autor consagrado do Vale é homenageado e tem suas obras apresentadas ao grande público.

Em seguida, o palco se abre para novos nomes. São apresentadas 10 poesias, tendo como intérpretes seus autores ou alguém por eles escolhido. As performances, que nos tomam o fôlego, são de grande nível. Abordam desde delicadezas efêmeras, até temas de peso da atualidade, tornando o momento mais uma oportunidade de voz ativa daqueles que buscam espaço, reconhecimento, e respeito.

Performance na Noite Literária
Performance do multi-artista Djalma Ramalho na Noite Literária de 2017 | Foto: Mallê

A cada edição, um novo júri é escolhido para selecionar os poemas e as performances, e premiar primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete. Há troféus e premiação em dinheiro.

Shows e Festival da Canção

Todas as noites, artistas renomados da música popular se apresentam, pra alegria e festa dos festivaleiros. É o momento de apreciar canções ao lado de amigos que, geralmente, só reencontramos nessa época.

Show com Saulo Laranjeira na abertura do 36º Festivale em Belmonte
Show com Saulo Laranjeira na abertura do Festivale em Belmonte | Foto: Mallê

Além dos shows, há também o concurso de música, que acontece por três noites consecutivas: duas eliminatórias e, no sábado, com o encerramento do evento, a grande final. O nível dos competidores é altíssimo!

As inscrições são abertas para pessoas de todo o Brasil. As 10 finalistas são gravadas em CD’s que podem ser adquiridos com a organização do evento (geralmente, no ano seguinte).

Grandes nomes da música do Vale do Jequitinhonha foram revelados através do Festival da Canção. Alguns artistas, como Hendrick Sousa, já ganharam inclusive o coração de ouvintes do outro lado do oceano.

Hendrick Souza e Letícia DiCássia no Festival da Canção do 35º Festivale
Hendrick Souza em sua apresentação com Letícia DiCássia no Festival da Canção | Foto: Mallê

Grupos Populares

Pode-se dizer que os grupos populares são o alicerce do Festivale. Pilares da sabedoria do Vale, tiveram origem, em sua grande parte, das tradições e manifestações religiosas trazidas por povos negros africanos, que foram escravizados.

Grupos populares e de folclore de Minas Gerais
Apresentação do Grupo de Marujada de Felício dos Santos no 34ª Festivale | Foto: Thiago Kling

Essas heranças culturais sobreviveram graças à oralidade. Dessa forma, nasceram grupos hoje muito conhecidos, que mantêm vivos os costumes, as crenças, a fé e a resistência de nossa ancestralidade.

Respeito

Caminhada contra o preconceito com povos de terreiro, Belmonte, Bahia, 2019
Caminhada protesto durante 36º Festivale em Belmonte, Bahia (2019) | Foto: Mallê

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, em se tratando de um evento com tanta tradição, a palavra de ordem por aqui é pluralidade.

O culto da fé e os desfiles de grupos LGBTQI+ coexistem. Todas as cores do mundo se encontram e festejam. Não há espaço para a diferença ou para o preconceito.

O Festivale promove o diálogo não só entre aqueles que participam do evento, mas busca levantar questões do município que o recebe, e estabelecer essa conexão.

Conheça o Vale do Jequitinhonha!

As terras encantadas do Vale banhado pelo Rio Jequitinhonha estão repletas de histórias e tradições. Todo aquele nascido aqui se faz herói desde cedo. O Festivale é uma vivência única que permite a qualquer um o privilégio de imergir totalmente numa experiência rica e inigualável.

Durante 7 dias, é possível se conectar com o lugar, sua história, sua gente. Sentir cada átomo do corpo vibrando. Perceber a batida do coração ser gradativamente substituída pelo bumbo dos tambores do congado. As cores múltiplas nos trajes da Marujada, o sorriso fácil de cada um e de todo mundo.

Se permita viver o Vale do Jequitinhonha através de um Festivale!

Mineira do Vale do Jequitinhonha, é apaixonada por tradições populares. De alma nômade e pés inquietos, sonha poder conhecer o mundo todo e suas diversas manifestações culturais.

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