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Feira Livre de Capelinha

Quando chegamos em Capelinha, nossas câmeras despertaram curiosidade nos moradores: “De onde vocês são?”; ” O que fazem?”; “O que estão fotografando?”; “Por que?”… Bastava responder a algumas destas perguntas pra que logo dissessem que precisávamos conhecer a feira livre! Decidimos então que aquele seria o nosso primeiro compromisso do final de semana.

Ainda que você chegue à cidade desavisado, sem conhecimento da feira livre, vai notar a movimentação, o cheiro, o encanto. Famosa em toda a região, a feira fez e faz parte da história de muita gente.

É dia de feira!

Apesar de muito frio, entre 4 e 5 horas da manhã já chegam os primeiros ônibus da zona rural, trazendo os feirantes e seus produtos. Logo após, por volta das 6 horas, o povo começa a aparecer. Donas de casa em busca do frescor dos vegetais recém colhidos, artesãos expondo orgulhosos suas obras, turistas de olhos atentos… Uma multidão!

Encontros e olhares na feira livre de Capelinha
Encontros e olhares | Foto: Thiago Kling

“Olha a farinha”… “Há quanto tempo, cumpadi”… Assim vão se dando os reencontros. Sons, sabores, aromas peculiares. Um universo à parte! Fervilhar de sensações.

O cliente e o feirante na feira livre de Capelinha
O cliente e o feirante | Foto: Mallê

Tudo acontece no Mercado Municipal, um grande galpão com bancas de madeira e corredores estreitos. Os pequenos produtores ficam lá dentro. Estes, cultivam e fabricam tudo em suas terras. A saber, nas ruas ao redor também há barraquinhas. Mas algumas têm mercadorias trazidas de grandes distribuidoras. Ou seja, empresas que nem sempre se preocupam com orgânicos e abusam no uso de agrotóxicos. Optar pelos produtos da região garante o consumo de qualidade; além disso, ajuda na economia local.

Feirante no Mercado Municipal
Feirante no Mercado Municipal | Foto: Mallê

Os produtos são os mais variados: frutas, verduras, legumes, queijo, pastel, pimenta, urucum, cachaça, fumo de rolo, palha de milho, rapadura, doces, peneira de taquara, mel, ovos caipira, cheiro verde…

Produtos à venda na feira livre de Capelinha
Produtos à venda na feira livre de Capelinha | Foto: Mallê
Produtos à venda na feira livre de Capelinha
Produtos à venda na feira livre de Capelinha | Foto: Mallê

A História da Feira Livre de Capelinha

Para quem vive na cidade, certamente é impossível imaginar Capelinha sem a típica feira de sábado. Desde as primeiras décadas do século XIX, quando o comércio apenas oferecia produtos que não eram fabricados na região (como ferramentas, sal e querosene) ela já acontecia.

Foto antiga da feira de Capelinha
Foto antiga da feira livre em Capelinha | Fonte: Dossiê de Registro Patrimônio Imaterial

Havia cinco feiras ao mesmo tempo em Capelinha, nos chamados ranchos, sendo o Rancho Jacinto José o mais antigo, que ficava na chamada Rua das Flores. “Os fazendeiros chegavam à cidade na sexta-feira à noite com seus animais carregados de mercadorias, arranchavam, preparavam suas comidas em trempes e dormiam no próprio rancho. Ao amanhecer, expunham suas mercadorias em lonas e sacos abertos no chão, que, segundo relatos, era de terra batida. Moradores dos municípios vizinhos também vendiam seus produtos nos ranchos, como relata Seluta: o seu pai viajava 3 dias, a cavalo, de Turmalina a Capelinha, trazendo panelas e utensílios de barro fabricados por sua esposa”. (Dossiê de Registro do Patrimônio Imaterial – Feira Livre de Capelinha).

Os ranchos não eram grandes o suficiente para comportar todas as pessoas, e a feira se estendia pela rua. Quando estava para acabar, às vezes as mercadorias não vendidas eram trocadas entre os fazendeiros, numa prática comum de escambo na época.

O primeiro mercado público municipal foi construído onde hoje é a Rodoviária, e reuniu os feirantes até a década de 1980, quando foi construído o Mercado Municipal onde a feira funciona até hoje.

Hoje em dia…

Algumas pessoas que ainda trabalham na feira, viveram o tempo dos ranchos. Durante nossa visita, conhecemos Dodô, um senhor simpático e de sorriso fácil. Disse ter 65 anos de feira. Quando perguntado sobre sua idade, afirmou ter 68 anos. Cresceu ali, acompanhando o pai que era feirante, assim como ele passou a ser depois, quando herdou a barraquinha.

Seu Dodô, um dos feirantes desde a época dos tropeiros
Seu Dodô | Foto: Mallê

A feira é uma expressão de um povo, de um lugar, de uma luta. Labuta diária, entrega constante. Do solo fértil, das mãos calejadas. É o retrato daquilo que é de fato, e de outras tantas histórias de antes, de depois. É o resultado da sabedoria dessa gente que sabe a hora de semear, de poder, de colher.

Feirante de Capelinha MG
Gente que faz a história da feira de Capelinha | Foto: Mallê

Não é o comércio, a economia, o dinheiro. É sobretudo a existência, a persistência. Resistência. Os novos tempos oferecem prontamente entregue às mãos produtos sem história. Eu acredito no olhar cansado por horas sob o sol, dedicado à beleza que nos servirá a mesa enquanto sustentaremos nossas famílias com o que os sustentará também.

Admire do início ao fim…

Feira Livre de Capelinha | Créditos: César Paranhos

Mineira do Vale do Jequitinhonha, é apaixonada por tradições populares. De alma nômade e pés inquietos, sonha poder conhecer o mundo todo e suas diversas manifestações culturais.

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