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Banco de areia entre Rio Jequitinhonha e o mar

Não me lembro de ter ouvido falar da cidade de Belmonte antes. A não ser aquela do outro lado do Atlântico, em Portugal. Essa Belmonte aqui, que era desconhecida por mim, e continua sendo pra tanta gente, é bem brasileira. Fica na Bahia. Tem uma ligação bonita por demais com Minas Gerais; mais especificamente com o Vale do Jequitinhonha.

Belmonte entrou em nossa lista de destinos em julho de 2018, quando foi anunciado que a cidade sediaria a 36ª edição do Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha.

Foram meses estudando as possíveis rotas, escolhendo o melhor caminho pra chegar de carona. Um ano depois, de mochilão nas costas, lá estávamos nós: ansiosos pelo 36º Festivale, e ainda sem imaginar o quanto seríamos surpreendidos pela pequena Belmonte!

Quem é Belmonte?

Entre o Rio Jequitinhonha e o Oceano Atlântico, existe uma planície com cerca de 2.000 km², onde em 1764 surgiu Belmonte. Começou como uma pequena vila, que no final do século XIX se desenvolveu graças ao cultivo do cacau. Em 1891, tornou-se cidade.

Chamava-se Belmonte do Jequitinhonha. Dizem que o nome foi escolhido pelo então ouvidor de Porto Seguro, em homenagem ao local onde Pedro Álvares Cabral nasceu, em Portugal.

Naquela época, o Rio Jequitinhonha era largo e profundo. Os navios que vinham do mar adentravam por ele e atracavam no porto para abastecer seus porões de cacau. Segundo registros, era possível navegar até Minas Gerais, chegando à cidade de Salto da Divisa.

Ainda nos dias de hoje, a cidade tem vestígios daquele tempo. Na larga Avenida Beira Rio, que margeia o Jequi, existem galpões que eram utilizados para armazenar o cacau que os navios vinham buscar.

Galpão de armazenamento e venda de cacau em Belmonte
Antigo galpão de armazenamento de cacau, ainda em funcionamento | Foto: Mallê

Pelas ruas, na região do Centro Histórico, todas as casas têm estilo colonial, como um grande museu a céu aberto. Algumas, tombadas pelo município, ganharam até um charmoso azulejo com o título de patrimônio.

Arquitetura colonial no Centro Histórico de Belmonte
Arquitetura Colonial das casas no Centro Histórico de Belmonte | Foto: Mallê

Ver com os próprios olhos

Depois de rodar muitos quilômetros, chegamos. Mesmo com nossos olhos atentos pela janela do carro, não foi possível, num primeiro momento, entender o lugar. Aliás, nós não tínhamos qualquer expectativa.

Antes de deixar nossa cidade, um primo recomendou, em tom sarcástico: “levem uma foto de algum lugar bonito pra olhar enquanto estiverem por lá”. Ele disse ter passado pela cidade há alguns anos, e que “o lugar era muito feio”.

Acredito que todo lugar tenha sua peculiaridade que a torna única e especial. Como sempre, eu quis ver com meus próprios olhos, tirar minhas próprias conclusões. Talvez eu nem precisasse mencionar esse fato, mas me senti na obrigação, uma vez que o que encontrei foi completamente diferente do que nos foi descrito.

Será que ele realmente estava em Belmonte? Tenho minhas dúvidas!

Nota mental: o olhar do outro é baseado na vivência dele.
Experimentar sempre! É impossível conhecer o sabor que o paladar do outro prova.

Bem vindos a Belmonte!

Enfim, depois de rodar 763 km de carona, estávamos no nosso destino. Passamos as primeiras horas sentados na praça da cidade. Aliás, sentados na praça principal, da igrejinha matriz. Afinal de contas, se tem uma coisa que Belmonte tem, é pracinha lindinha pra gastar tempo.

Com toda a confusão de pessoas chegando, palco sendo montado, organizadores do evento pra lá e pra cá, barraquinhas de comida pra todo lado… Ainda assim tudo era aconchegante.

Calmaria e tranquilidade em Belmonte
Um retrato que resume bem a cidade de Belmonte | Foto: Thiago Kling

Cidade das Bicicletas

Em pouco tempo, notamos as ruas silenciosas e tranquilas. A princípio, não parecia nada além de um típico dia de domingo numa cidadezinha interiorana. Mas chegou a segunda-feira, e pouca coisa mudou. Havia mais pessoas nas ruas, mas os carros eram raros. Quando passava algum, tinha placa de fora (geralmente, alguém que estava ali também para o evento).

Na contramão dos lugares que conhecemos antes, Belmonte tem um número incontável de bicicletas! Depois de nos atentarmos para isso, percebemos também que o número de bicicletarias era infinitamente maior que o de postos de gasolina.

Belmonte, cidade das bicicletas
As bicicletas compõem o cenário | Foto: Thiago Kling

Na Avenida Beira Rio, há um pequeno posto, que parece servir aos pescadores, que precisam de combustível para alguns barcos a motor. Numa outra avenida, uma das principais da cidade, há mais um, com duas ou três bombas apenas, num estilo retrô que parece saído do cenário de um filme antigo. Nesse, não há se quer espaço para que os carros estacionem: as bombas ficam na calçada, os carros param na rua mesmo, coladinhos no meio-fio, abastecem e seguem. Segundo os moradores, há um terceiro posto, logo na entrada da cidade, que atende principalmente aos ônibus que transitam só nos primeiros quarteirões e já voltam para a estrada. Esse, porém, nós nem vimos.

As bicicletas, por sua vez, estão por toda parte! Algumas têm garupa pra dar carona aos amigos. Quem tem filho, conta com a cadeirinha no quadro pra levar a criança. Há quem use os dois e leve a família toda! Quase todas têm cestinha na frente, pra colocar o pão, as compras, a mochila… Quem não tem cestinha, improvisa até com caixa de mercado.

Ciclista em uma das praças de Belmonte
Belmonte pode ser considerada a “Cidade das Bicicletas” | Foto: Thiago Kling

Mas a “tecnologia” das bicicletas de Belmonte não vai muito além disso. Os modelos são os mais simples. Nenhuma com marcha. A propósito, nem precisa: a topografia ajuda, já que é tudo plano.

O que é que Belmonte tem?

Junto a Alcobaça, Arraial D’Ajuda, Porto Seguro e outras cidades, Belmonte integra a Costa do Descobrimento, um dos mais famosos circuitos turísticos da Bahia. Apesar disso, não é do turismo que o lugar vive.

Até o ano de 2000, nem havia asfalto na estrada que liga Belmonte a Santa Cruz de Cabrália, o que dificultava bastante o acesso. Mesmo agora que a via é pavimentada, a procura é pouca.

Belmonte recebe um número irrelevante de turistas se a compararmos com a vizinhança. Não há muita divulgação, nem tampouco estrutura para receber multidões. Vimos uma pousada, dois ou três restaurantes e só.

Restaurante Beira do Jequitinhonha, em Belmonte
Restaurante Beira do Jequitinhonha | Foto: Mallê

Mas há muito o que ver por aqui! Muita cultura, história, tradição, uma gastronomia riquíssima, encontro de rio com mar, e até um museu de design! Sem contar o pôr do sol… Um dos mais lindos que já vi!

O Rio Jequitinhonha e a Pesca

Hoje, Belmonte é basicamente uma comunidade pesqueira. Apesar do empenho do atual secretário de cultura para colocar a cidade na rota dos turistas, ainda é no Rio Jequitinhonha que os moradores encontram seu sustento.

Belmonte é uma comunidade pesqueira
Belmonte é uma comunidade pesqueira | Foto: Thiago Kling

Do nascer do sol ao fim do dia, lá estão os barcos. Alguns a motor, mas grande parte é canoa de remo mesmo. Jogam a rede à noite, e voltam durante o dia para puxar a tarrafa. Muito conscientes, devolvem os peixes pequenos ao rio. Levam o que vão comer e o que vão vender.

Perca com tarrafa em Belmonte
Pescador no Rio Jequitinhonha, em Belmonte | Foto: Thiago Kling

Não é fácil. Trabalho árduo. Sem contar que o rio Jequi já não é mais como antigamente… Perdeu suas forças. Ele que antes alagava as ruas da cidade em épocas de cheia, hoje tem um baixo nível de água. Parte do problema se deve ao fato de seus afluentes estarem secando. Mas a construção da Barragem de Itapebi em 1999 foi o que mais causou prejuízos.

Os remos gigantes hoje servem pra empurrar a canoa contra o barro do fundo. Lá no meio do rio, os pescadores ficam de pé, e a água nem lhes cobre os joelhos. Assim, os peixes vão sumindo.

O baixo nível da água no Rio Jequitinhonha
O baixo nível da água no Rio Jequitinhonha | Foto: Thiago Kling

Na época de “defeso” (quando não podem pescar porque os peixes estão colocando seus ovos), recebem um valor do governo, um tipo de seguro desemprego. Como não é muito, se voltam à colheita do cacau.

Conversar com os pescadores em Belmonte é uma troca cultural muito enriquecedora! Conhecer a realidade deles, a luta diária, e mesmo assim vê-los costurando suas redes concentrados, admirando o rio, falando dele com tanto amor. Com toda a dificuldade, não perderam o brilho nos olhos e a generosidade. Teve convite pra ir pescar junto, e até pra almoçar! Foi com eles que Gilberto viveu a experiência inesquecível de entrar no Jequi, atravessar o mangue, chegar à foz. A felicidade dele ficou estampada em cada foto!

O Rio Jequitinhonha por entre o mangue
Beto conhecendo de pertinho o mangue | Foto: Thiago Kling
Gilberto brincando no banco de areia na Foz do Rio Jequitinhonha
A felicidade de quem viveu coisas incríveis | Foto: Thiago Kling

Encontro do Rio com o Mar

Um extenso paredão de areia marca a foz do Rio Jequitinhonha, onde depois de percorrer metade de Minas Gerais, enfim, deságua suas histórias no Oceano Atlântico.

De um lado, o rio. Do outro, mar. E de cima do banco de areia, uma imensidão sem nada! Vez ou outra, algum tronco seco de árvore, pedaços de coqueiro, que deixam o cenário ainda mais surreal. Acho que pra quem nasceu no Vale do Jequitinhonha, assim como eu, essa é uma experiência obrigatória na vida. Nossa Meca.

Banco de areia que divide o Rio Jequitinhonha do Mar
Banco de areia no encontro do Rio Jequitinhonha com o mar | Foto: Thiago Kling
O Rio Jequitinhonha na foz
O lado do Rio Jequitinhonha, na foz | Foto: Thiago Kling
Mar na foz do Rio Jequitinhonha
O lado do mar na foz | Foto: Thiago Kling

A beleza é infinita! Deságua o rio, e deságua os olhos da gente. De alegria e de tristeza.

Porque é bonito, é poesia pura. É de uma energia que toma conta, acelera o peito, embarga a voz…

E é triste. Porque sem forças pra avançar, o Rio Jequitinhonha para do lado de cá. E é o mar quem vem. Entra no rio, e transforma sua doçura em água salgada. Transforma a vida, que não se adapta ao sal e morre. Hoje no Jequi tem bicho que vivia só no mar. Dá pra acreditar?

Visitar a foz do Rio Jequitinhonha nos devolveu pra casa mais apaixonados e mais preocupados em buscar respostas e soluções, tomar atitudes. Falar disso, tornar público, é só o primeiro passo.

Praia da Caeira no rio de água salgada

Eu poderia dizer que é uma praia de água doce, já que está no Rio Jequitinhonha. Mas fica bem pertinho da foz. Então, se provar a água, tá salgadinha, salgadinha!

A praia da Caeira é um cartão postal de Belmonte. Fica numa área bem reservada, e é acessada por uma estrada de terra entre várias fazendas de coco. Não é muito extensa. Mas é linda e excelente pra descansar em silêncio, observar os barcos seguindo em meio ao mangue, e as garças sobrevoando o rio.

Praia da Caieira em Belmonte
Praia da Caieira, cartão postal de Belmonte | Foto: Mallê

O pôr do sol visto de lá é lindo! As águas vão ganhando o mesmo tom dourado do céu. E de repente, parece que tudo virou ouro.

Praia do Mar Moreno e o mar que devora casas

Planinha, planinha… Belmonte é uma cidade retinha de tudo! Pra nós mineiros, chega causar estranheza: não se vê montanhas, nem subidas, nem descidas. Nada de ladeira! Não fosse o bastante, aqui estamos a apenas 8 metros de altitude em relação ao nível do mar!

Apesar disso favorecer longas caminhadas por suas agradáveis ruas arborizadas, esse fato vem se tornando motivo de preocupação há alguns anos.

A Praia do Mar Moreno é mais um dos pontos turísticos de Belmonte. Ela tem esse nome por causa da cor da água em épocas de chuva, que fica marrom graças à proximidade do rio.

É lá também que está sua famosa estátua do Guaiamum, um parente azul do caranguejo, muito utilizado na culinária local. A escultura foi feita pelo artista plástico argentino Miguel Bustos, e recepciona quem chega à praia.

Estátua do Guaiamum, em Belmonte
Guaiamum, símbolo da cidade de Belmonte | Foto: Mallê

Por trás do crustáceo gigante, o que se vê porém não é tão amigável. O mar, sem barreiras como em Porto Seguro, chega com toda força à orla. Revolto e violento, está levando para dentro do oceano as construções da costa.

Erosão Costeira

Segundo os moradores de Belmonte, nos últimos dois anos o mar subiu bastante. Um bairro inteiro teria desaparecido oceano adentro. É possível observar o que sobrou de algumas casas e barracas. Poucos tijolos permaneceram empilhados, antigas piscinas estão cheias de areia… Vestígios do que já foi alguma coisa.

Praia do Mar Moreno em Belmonte, com construções destruídas pelo mar.
Construções destruídas pelo mar | Foto: Mallê

O estrondoso barulho das ondas dá o recado: a Praia do Mar Moreno não é ideal para um mergulho! A força das ondas arrasta qualquer um que se atrever. E os bombeiros já avisam que nem eles entram pra salvar, porque ninguém conseguiria sair. Algumas placas ainda alertam quanto aos acidentes que podem ocorrer com vidros, vergalhões e outros materiais das construções que foram engolidas.

Praia do Mar Moreno, Belmonte, Bahia
Praia do Mar Moreno: placa alerta riscos | Foto: Mallê

Minha passagem por ali se resumiu a uma respeitosa caminhada pela areia, atenta à força da natureza, que mesmo em fúria, é estonteante.

Sentada na praia, fiquei pensando no futuro de Belmonte. Cientistas preveem o desaparecimento breve da cidade. Com o aquecimento global descongelando geleiras e o nível do mar se elevando, dentro de pouco tempo tudo vai ser devorado, inclusive o Rio Jequitinhonha, do outro lado.

Há quem acredite. Dois dias depois de sairmos de lá, inclusive, a maré alta assustou os moradores. Há quem duvide. Dizem que o mar só está recuperando seu espaço (ele teria recuado há décadas, o que justifica a existência de um farol lá no meio da cidade). Seja como for, as casas a caminho da praia estão todas à venda.

Se prepare pra Saudade!

É certo que quem passar por Belmonte, não vai se arrepender. As pessoas são acolhedoras e adoram contar histórias. Uma viagem rica de sensações.

Vale a pena incluir no seu roteiro, caso esteja passando por Porto Seguro (se estiver de carro dá até pra fazer bate e volta). Apesar da pouca estrutura, tem tudo o que é necessário, com simplicidade. Coloque na lista experiências como provar da culinária local, e levar pra casa os doces e licores da Tia Pombinha. Caminhe pelas avenidas largas do Centro Histórico, e aprecie também o dia a dia local na Biela.

Fica a dica… Quem sabe Belmonte não ganhe seu coração, assim como ganhou o nosso?!

Belmonte, Bahia, Brasil
Belmonte, Bahia, Brasil | Foto: Thiago Kling

Mineira do Vale do Jequitinhonha, é apaixonada por tradições populares. De alma nômade e pés inquietos, sonha poder conhecer o mundo todo e suas diversas manifestações culturais.

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